Palavras-chave: racismo, igreja evangélica brasileira, graça, salvação
universal, reflexão
Se hoje abordarmos algumas pessoas nas igrejas
evangélicas do Brasil perguntando: - Você se considera racista?
Dificilmente encontraremos alguém admitindo seu
preconceito racial, pois acima de tudo, acredita-se que Deus é amor e que não
faz acepção de pessoas. E isto de fato em princípio está correto, mas será que
este pensamento acompanha uma prática?
O protestantismo histórico no Brasil é composto pelas
primeiras igrejas (denominações) que chegaram no Brasil através dos
missionários estrangeiros: Congregacionais, Batistas, Presbiterianos,
Metodistas, Luteranas, Anglicanas.
Essas igrejas chegaram no Brasil no período da escravidão
e tiveram entre seus lideres: defensores da escravidão, omissos, e
abolicionistas.
Os defensores da escravidão em sua maioria eram os
missionários que vieram do sul dos Estados Unidos, ainda com ressentimentos da
derrota da guerra da Secessão contra o Norte dos Estados Unidos pela libertação
dos escravos, esses missionários sulistas tinham a escravidão como instituída
por Deus, baseado em fatos teológicos que o povo negro eram da descendência de
Cam filho de Noé, amaldiçoado para ser escravos dos escravos.
Os protestantes omissos defendiam a posição da grande
maioria dos históricos a respeito da escravidão negra, também defendia a sua
posição teologicamente, afirmando que a Igreja não devia interferir no Estado,
ou seja na política.
Defendiam que seu compromisso era com o “espiritual”, que
deveriam tão somente se preocupar com a pregação do evangelho, e que a Igreja
deve se sujeitar a toda autoridade constituída, baseado na carta de Paulo aos
Romanos capitulo 13.
Já os abolicionistas estiveram presentes em quase todas
as denominações históricas, e eram em sua maioria missionários do norte dos
Estados Unidos, europeus, e alguns convertidos brasileiros; Mas infelizmente
eram em número muito menor do que os citados acima.
As igrejas Pentecostais são as denominações que chegaram
no Brasil com o movimento missionário Norte Americano da rua Azusa, após as
igrejas históricas, e foram também trazidas por missionários estrangeiros no
início do séc XX.
Possuem como característica o batismo com o Espírito
Santo, a cura de enfermidades no nome de Jesus, expulsão de demônios, e os
milagres. Os cultos são animados com muitos cânticos e são festivos.
As principais igrejas Pentecostais são: Assembléia de
Deus, o Brasil Para Cristo, Congregação Cristã do Brasil, Evangelho
Quadrangular, Igreja Unida.
Atualmente são nas igrejas Pentecostais, onde está grande
parte dos negros evangélicos. Com a chegada de tais denominações importadas, os
negros Pentecostais encontraram nelas, tudo aquilo que eles precisavam para
vencer do preconceito racial e melhorar sua auto-estima.
Pois estes negros pentecostais agora eram considerados
crentes, não praticavam mais as religiões-afro e por isso eram aceitos pelos
brancos como irmãos, os quais diziam que eles eram negros diferentes dos
outros. E diziam ainda que eram negros de alma branca.
Quando o movimento Pentecostal chegou no Brasil (assim
como os evangélicos Históricos) juntamente com o Evangelho, os missionários
trouxeram também a cultura ocidental euro-norte-americana, com seus valores e
costumes, fazendo com que estes valores culturais fossem vistos e aceitos no
Brasil como divinos modelos para todos os povos e as outras culturas locais não
eram consideradas de Deus, sendo atribuídas ao diabo, tal como se observa hoje
a respeito da cultura afro-indígena no Brasil.
É isto uma violência cultural em nome do “evangelho”, tão
grande quanto a que fizeram os padres católicos e jesuítas, quando também
chegaram em terras brasileiras.
2.3 – Renovados
Outros movimentos também aconteceram com a chegada do
Pentecostalismo no Brasil, pois alguns membros e pastores de denominações
históricas começaram a receber o batismo com o Espírito Santo e crer na cura de
enfermidades no nome de Jesus, expulsão de demônios, e nos milagres tal como
era pregado pelos pentecostais.
Isso deu origem a chamada Renovação Carismática (1966),
que foi um dos movimentos que mais provocou divisões entre as denominações
evangélicas brasileiras, e as igrejas históricas que passaram por este
movimento de renovação, vieram a ser identificadas como igrejas Renovadas.
Estas são igrejas que procuram manter a ortodoxia com as
mesmas bases doutrinárias das igrejas históricas (mesmo as racistas), contudo
com a doutrina pentecostal agregada.
2.4 - Neopentecostais
As igrejas Neopentecostais sugiram no Brasil a partir dos
anos 70 e suas principais denominações são: Igreja Universal do Reino de Deus,
Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra e uma
grande quantidade de outras denominações e pequenas comunidades.
O que diferencia os Neopentecostais dos Pentecostais,
Históricos e Renovados, além da data do seu surgimento, são alguns aspectos
teológicos e doutrinários, que essas igrejas trouxeram para o cenário
evangélico brasileiro, como: tolerância quanto aos usos e costumes, introdução
da dança nos cultos, diversidade de ritmos nas músicas e ênfase na prosperidade
como sinal da benção divina.
Contudo algumas características mais marcantes nessas
igrejas são as doutrinas importadas tais como: A teologia da prosperidade, A
Batalha Espiritual e a crença em maldições hereditárias.
Assim como também trouxeram outras experiências
espirituais tais como: Dente de Ouro, Cair Pelo Poder do Espírito e receber
unção de animais (benção de Toronto). E como existe uma forte ligação dos
Neopentecostais com os Pentecostais, Históricos e Renovados, observa-se que
essas doutrinas já são comuns em muitas delas também.
Porém o que é mais alarmante em tudo que foi dito acima,
e que precisa ser nosso objeto de nossa reflexão, é a demonização sistemática
de tudo aquilo que não é da cultura ocidental euro-norte-americana.
Sem perceberem, os grupos evangélicos citados acima,
estão trazendo velhos conceitos racistas, grandemente enraizados na cultura do
sul dos Estados Unidos, que no passado usavam a Bíblia para justificar a
escravidão, e a inferioridade do povo negro.
Atualmente este racismo sutilmente se manifesta através
da crença em maldições hereditárias e da batalha espiritual e
novamente essa velha tendência chega em nossas igrejas.
Na crença em maldições hereditárias a cultura africana é
considerada maldita, e para que este crente que tem ligações com ela, se veja
livre de suas maldições dos antepassados (apenas crer em Jesus não é
suficiente), é necessário que ele ainda faça renúncias verbais e unções com óleo
sagrado pelo corpo, para se desvincular de todo envolvimento (direto ou
indireto) com a cultura negra que é neste contexto considerada demoníaca; E
qualquer relação futura que ele venha ter com esta cultura, isso poderá ainda
trazer de volta as maldições, para isso é aconselhável que este novo crente, se
afaste totalmente da cultura demoníaca (cultura negra), para enfim adotar como
padrão os valores euro-norte-americano de ser-evangélico, como se estes valores
culturais fossem de alguma forma mais puros, santos e superiores.
3.2- Batalha Espiritual
Na Batalha Espiritual o caso parece ser mais sério ainda
para o negro, pois se olharmos cuidadosamente nos livros que tratam do assunto
(principalmente dos E.U.A traduzido para o português. Ver o livro de ficção:
Este Mundo Tenebroso, de Frank E. Peretti – Editora Vida) veremos que os
exércitos de Deus são todos brancos e loiros e o exército do diabo são todos
pretos e negros.
Os demônios expulsos em sessões de libertação destas
igrejas, em grande parte são identificados como sendo do panteão das religiões
afro, denotando assim uma implacável demonização desta cultura por parte dos
crentes, que por herança histórica, passaram a ver todas as culturas que não
são euro-norte-americana, como sendo obra do demônio.
Também os anjos, quando vistos em ditas experiências
espirituais destes crentes brasileiros, estes seres espirituais são sempre
brancos, loiros e de olhos azuis (padrão euro-norte-americano), e quando estas
visões raramente fogem do comum, nota-se que o anjo avistado é ruivo.
E isso pode ser observado também nos livros de batalha
espiritual do escritor Daniel Mastral, onde supostamente foi visto um anjo
ruivo, o qual é apresentado como o mentor de Daniel Mastral[1]
(ex-satanista), conforme o próprio autor narra ao longo de sua história.
Observa-se também, que durante esta narrativa, este anjo ruivo é identificado
por Neuza Itioka[2] (Grace),
como sendo o próprio Arcanjo Miguel (o príncipe dos exércitos celestes).
Não é objetivo deste artigo, acusar de fraude ou racismo
os autores evangélicos citados, contudo questiona-se até que ponto estas
experiências espirituais são de fato verdadeiras. Por que anjos brancos são
bons e anjos negros são identificados como demônios entre os crentes? Será que
estas experiências não são projeções de consciências obliteradas e acostumadas
com o padrão euro-norte-americano, o qual nos foi imposto historicamente?
Contudo o fato é que estes são conteúdos muito sérios, e
que vão penetrando no inconsciente das pessoas, influenciando comportamentos
racistas velados, e também trazendo conseqüências sérias para a saúde da Igreja
Evangélica Brasileira.
Sabe-se que Deus é Universal, assim com a Sua Graça e
Salvação, a qual não pertence a nenhuma etnia exclusiva, portanto Ele nunca foi
exclusividade de Israel, assim como não é europeu, norte americano, negro,
latino, asiático etc..
Deus não tem propósito em assumir uma preferência étnica
ao se revelar aos homens, logo não faz sentido que Seus anjos se manifestem
assumindo traços de determinadas etnias (loiro, ruivo etc..).
A igreja evangélica brasileira, semelhantemente a igreja
de Laodicéia (Ap. 3:14), pensa que está rica, mas não sabe que é uma
desgraçada, pobre, cega e nua. Embora
pense que está caminhando bem e prosperando em seus caminhos, não sabe que é
miseravelmente racista e que está reproduzindo um pensamento retrógrado
racista, sendo também incapaz de ver a enorme contradição entre o que confessa
e o que pratica.
Tais práticas racistas veladas precisam ser combatidas abertamente
pelos crentes no Senhor, pois tais estruturas de pensamentos, os quais colocam
veladamente o branco como algo bom e superior e o negro como algo mal e
inferior, isto é demasiadamente repugnante e jamais deve ser aceito por um
homem ou mulher de bem nesta nação.
É muito triste observar que determinados folclores como o
alemão com suas músicas e ritmos, são aceitos sem nenhuma resistência nestas
igrejas do Brasil; Ao passo que o folclore da cultura afro e suas músicas e
ritmos são estes demonizados, e tudo atribuído às obras do diabo.
Porque aceitamos um folclore e rejeitamos outro? A resposta é que isto é o puro racismo velado quanto à cultura negra, excluindo tudo que não é da cultura euro-norte-americana.
Sendo lamentável observar, que ainda ensinam as crianças
evangélicas, que o preto significa pecado, e que o branco significa santidade.
Pare e pense: Quem
foi que instituiu estes símbolos desta forma?
Será que nós brasileiros, cuja maioria é afro-descendentes, podemos concordar
com esta forma de pensamento que influencia comportamentos racistas?
Precisa-se mudar urgentemente estes paradigmas, assumindo
uma nova identidade evangélica brasileira, dando um novo significado aos seus
símbolos.
Pois até quando a igreja brasileira será esta cópia mal
feita da igreja evangélica euro-norte-americana?
Neste presente artigo tomou-se como base a cultura negra
para tecer esta reflexão, mas sabe-se também que esta atual forma de pensamento
racista euro-norte-americana, que lamentavelmente está presente no Brasil,
exclui também a cultura dos indígenas, latinos, povos do oriente médio e
asiáticos.
Portanto é muito sério este racismo velado que acontece
sutilmente na cristandade do séc. XXI, pois a prática da igreja deve acompanhar
sua confissão de fé, a qual deve pensar duas vezes nos impactos locais, antes
de importar novas práticas cristãs.
Links sugeridos:
http://ejesus.com.br/conteudo/4873/
http://www.guerreirosdaluz.com.br/batalhaespiritual-caiofabio.htm
http://www.guerreirosdaluz.com.br/palhacosouprofetas.htm
http://www.guerreirosdaluz.com.br/doutrincasatanicarastrosdoculto.htm
http://www.guerreirosdaluz.com.br/analisebiblicadapraticadoagape.htm
http://www.guerreirosdaluz.com.br/respostadoministerioagapereconciliacao.htm
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[1] Escritor de livros sobre seu testemunho de conversão e batalha espiritual.
[2] Fundadora do ministério Ágape Reconciliação e atualmente é a maior palestrante de batalha espiritual e cura interior no Brasil. Encontra-se vinculada a Peter Wagner e seu seminário Füller nos EUA, de onde importou toda a doutrina da batalha espiritual. Nos livros de Daniel Mastral ela é identificada com o pseudônimo de Grace.
[3] Mariel Marra é atualmente bacharelando em Teologia pela FATE-BH (Faculdade evangélica de Teologia de Belo Horizonte), membro da Igreja Batista da Lagoinha, servindo nesta congregação como diácono.Trabalha ativamente na Internet e outros meios de comunicação em favor da Fé Cristã e do meio ambiente, chamando a todos ao equilíbrio e moderação em Cristo por meio das Escrituras. Para outras informações: marielmarra@gmail.com