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QUEM É TUA COBERTURA?

 

UMA ABORDAGEM AO CONCEITO DE LIDERANÇA,

AUTORIDADE E RESPONSABILIDADE

NA PRESTAÇÃO DE CONTAS

 

 

FRANK A. VIOLA

 

 

 

 

Traduzido para o Português por Railton de Sousa Guedes

Copyright 2005 (Present Testimony Ministry)

 

 

Versão revista e distribuída subversivamente por

Motosierra en Manos distro [Belo Horizonte/MG]

copie livremente, preserve o nome do autor e o texto.

desrespeite o copyright (porque ele não respeita você),

 

 

A todos os Cristãos que buscam reunir-se sob a direção de Jesus Cristo, com a mesma simplicidade e pureza que caracterizou os primeiros crentes.

 

 

 

 

 

CONTEÚDO

Prólogo. 3

Prefácio. 3

Introdução. 4

1. Modelos de Liderança. 5

2. Objeções Tradicionais. 12

3. Autoridade e Submissão. 20

4. Cobertura Denominacional 28

5. Autoridade apostólica: I, II, III 31

6. Resumo, Conclusão e Bibliografia. 39

 


PRÓLOGO

 

 Lembra do conto infantil, A Nova Roupa do Imperador?  Nele, um menino expressou o que os adultos já sabiam, mas que não se atreviam admitir.  Frank Viola, neste relevante tratado acerca da “autoridade na igreja”, é como o menino que finalmente exclama: “O imperador está nu!”.

 A maioria dos crentes provavelmente já suspeita que nem tudo vai bem em Sião, mas são lentos para questionar o status quo.  Afinal, quem quer ser talhado como perturbador? O fato assombroso do assunto é que a maioria dos sistemas de política eclesiástica não veste o traje Escritural!

Afinal, exatamente quem tem autoridade sobre quem na igreja? Deve um pastor ou uma pluralidade de anciãos controlar uma igreja? Que significa a responsabilidade de prestar contas”? As denominações proporcionam uma proteção contra o erro doutrinal e o fracasso moral? Necessitamos de modernos apóstolos que nos digam o que devemos fazer? Onde em tudo isso se encaixa o dom espiritual de “governar”?

 Quando fui pastor de carreira, enfrentei tais temáticas. De modo surpreendente, quando estudei no seminário, nenhum destes temas foi seriamente tratado.  Já no ministério, descobri que a maioria dos pastores com quem eu discutia estas coisas nunca haviam pensado realmente nelas.  Deixar de acreditar que é necessário haver um só pastor em cada igreja para crer em uma pluralidade de anciãos significou para mim uma paradigmática e maiúscula mudança.  Mas isso representou apenas a ponta do iceberg – o tema da liderança é bem mais amplo e a questão de quantos anciãos são necessários a uma igreja chega a ser quase irrelevante.

A exposição de Frank é minuciosa e Bíblica.  Destaca cada passagem relevante que trata da liderança e da autoridade.  Asseguro-lhes que este livro enriquecerá sua compreensão do significado da autoridade no reino de Deus. 

Queira nosso Senhor agradar-se da verdade contida nestas páginas e a utilize para libertar as legiões de seguidores e líderes que estão atolados na escravidão dos sistemas hierárquicos eclesiásticos. Como disse Jesus, “A verdade vos libertará”.

 

Steve Atkerson

Atlanta, Georgia

 

PREFÁCIO À PRIMEIRA E TERCEIRA EDIÇÃO

 

Em meu último livro, Rethinking the Wineskin:  The Practice of the New Testament Church[1], exponho os princípios fundamentais que governavam a igreja primitiva. O livro foi recebido favoravelmente, e influenciou no nascimento de um grupo de igrejas constituídas segundo o modelo do Novo Testamento (NT).

Como era esperado, algumas destas novas e incipientes assembléias passaram a sofrer a oposição dos líderes da igreja organizada.  Particularmente, tem gerado penetrantes questões com respeito à autoridade eclesiástica. De fato, tem suscitado as mesmas perguntas que os líderes religiosos fizeram ao nosso Senhor há muitos séculos:

“Com que autoridade estás fazendo estas coisas? E quem te deu tal autoridade?” (Mat. 21:23).

Desafortunadamente, não se tem escrito muito para responder a esta pergunta, de modo que me senti na obrigação de abordar o tema aqui e agora. 

Parte do conteúdo deste livro coincide com Reconsiderando o Odre, mas completa a maneira como abordo os temas de liderança e autoridade.  Há também uma considerável variedade de material novo que não é abordado no livro anterior.  Por esta razão, esta obra é um verdadeiro complemento de Reconsiderando o Odre.

Em minha opinião, o principal valor deste livro consiste nisto: apresenta um modelo arejado que nos permite compreender a liderança, a autoridade e a responsabilidade na prestação de contas.  Este modelo é único e origina uma contracultura. Não é teórico.  Tem funcionado em muitas igrejas que retornaram ao princípio do NT para fundamentar sua vida corporativa. 

Meu objetivo ao escrever, por tanto, é prático e teológico. É construtivo e não controverso.  Contudo, pelo fato de ser tão radicalmente diferente do conceito tradicional, não há dúvida que causará surpresa, e mesmo hostilidade.

 Frank A. Viola

 Brandon, Florida , Janeiro, 1998

 

Esta TERCEIRA edição de “Quem é sua Cobertura?” é mais clara e fácil de ler que a original. Como ocorreu com meu primeiro livro, Reconsiderando o Odre este volume continua sendo traduzido a muitos e variados idiomas. Tendo isso em vista, senti a necessidade de facilitar a leitura para que minha mensagem chegue a um público mais amplo.

Todos aqueles que leram a obra original poderão apreciar a facilidade de leitura desta edição, assim como o aspecto novo com o qual se apresenta. A fonte é maior e a capa mais atrativa.

Quero agradecer a Mike Biggerstaff pelo intenso trabalho de prova na impressa. Por conseguinte, qualquer erro tipográfico pode ser debitado de Mike. Frank A. Viola, Brandon, Florida. Janeiro, 2001

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

“Afinal, quem é tua cobertura?”

Esta é a pergunta concisa feita por muitos cristãos modernos em toda parte aos que se reúnem fora da igreja institucional.  Mas, o que há no âmago desta pergunta? Qual sua base bíblica? É disto que nos ocuparemos neste livro.

Sustento que o ensino moderno conhecido como “cobertura protetora” tem gerado uma enorme confusão e uma conduta cristã anômala.  Este ensino afirma que os cristãos estão protegidos do erro doutrinal e do fracasso moral quando se submetem à autoridade de outro crente ou organização. 

A dolorosa experiência de muitos me levou a concluir que o ensino da “cobertura” é um assunto que perturba grandemente a Sião em nossos dias e exige uma reflexão crítica.

Nas páginas a seguir, tento abrir caminho a través da névoa que rodeia aos temas difíceis vinculados com este ensino. Refiro-me a temas tão espinhosos como o da liderança da igreja, a autoridade espiritual, o discipulado e a responsabilidade de prestar contas. Ademais, busco bosquejar um modelo integral que nos permita entender como opera a autoridade na ekklesia (igreja). 

 

A “Cobertura” está Coberta pela Bíblia?

É surpreendente que a palavra “cobertura” apareça apenas uma vez em todo o NT. É usada referindo-se à cabeça coberta da mulher (1 Cor. 11:15).  Ao passo que o Antigo Testamento (AT) utiliza pouco este termo, sempre o emprega referindo-se a uma peça do vestuário natural.  Nunca é utilizado de maneira espiritual ligando-o a autoridade e submissão.

Portanto, a primeira coisa que podemos dizer acerca da “cobertura” é que há escassa evidencia Bíblica para construir-se uma doutrina.  Não obstante, incontáveis cristãos repetem como papagaios à pergunta “quem-é-tua-cobertura?” e insistem nela como se fosse a prova do ácido que mede a autenticidade de uma igreja ou ministério.

Se a Bíblia silencia com respeito à idéia da “cobertura” o que é que se pretende dizer com a pergunta, “Quem é tua cobertura”?  A maioria (se insistíssemos) formularia esta mesma pergunta em outras palavras: “A quem você presta contas?”. 

Mas isso suscita outro ponto difícil.  A Bíblia nunca remete a prestação de contas a seres humanos, mas exclusivamente a Deus! (Mat. 12:36; 18:23; Luc. 16:2; Rom. 3:19; 14:12; 1 Cor. 4:5; Heb. 4:13; 13:17; 1 Ped. 4:5). 

 Por conseguinte, a sadia resposta Bíblica à pergunta “a quem prestas contas?” É bem simples:   “presto contas à mesma pessoa que você, a Deus”.  Assim, pois, é estranho que tal resposta provoque tantos mal entendidos e falsas acusações.

 Deste modo, embora o tom e o timbre do “prestar contas” difira apenas da “cobertura”, a cantilena é essencialmente a mesma, e sem dúvida não harmoniza com o inconfundível canto da Escritura.

 

Trazendo à Luz a Verdadeira Pergunta que se Esconde Atrás da Cobertura

Ampliemos um pouco mais a pergunta. Que é que se pretende realmente dizer na pergunta acerca da “cobertura”?  Permito-me destacar que a verdadeira pergunta é, “Quem te controla?”.  

O (maléfico) ensino comum acerca da “cobertura” realmente se reduz a questões acerca de quem controla quem.  De fato, a moderna igreja institucional está construída sobre este controle.

Conseqüentemente, a gente raras vezes reconhece que é isto que está na base da questão, pois se supõe que este ensino esteja bem ancorado nas Escrituras.  São muitos os cristãos que crêem que a “cobertura” é apenas um mecanismo protetor. 

Assim, pois, se examinarmos o ensino da “cobertura”, descobriremos que está baseado em um estilo de liderança do tipo cadeia de comando hierárquico. Neste estilo de liderança, os que estão em posições eclesiásticas mais altas exercem um domínio tenaz sobre os que estão debaixo deles.  É absurdo que por meio deste controle de direção hierárquica de cima para baixo se afirme que os crentes estejam protegidos do erro.

O conceito é mais ou menos o seguinte:  todos devem responder a alguém que está em uma posição eclesiástica mais elevada. Na grande variedade das igrejas evangélicas de pós guerra, isto se traduz em:  os “leigos” devem prestar contas ao pastor.  Que por sua vez deve prestar contas a uma pessoa que tem mais autoridade.

O pastor, tipicamente, presta contas à sede denominacional, a outra igreja (muitas vezes chamada de “igreja mãe”), ou a um obreiro cristão influente a quem considera ter um posto mais elevado na pirâmide eclesiástica. 

De modo que o “leigo” está “coberto” pelo pastor, e este, por sua vez, está “coberto” pela denominação, a igreja mãe, ou o obreiro cristão.  Na medida que cada um presta contas a uma autoridade eclesiástica mais elevada, cada um está protegido (“coberto”) por essa autoridade. Esta é a idéia.

Este padrão de “cobertura-responsabilidade em prestar contas” se estende a todas as relações espirituais da igreja.  E cada relação é modelada artificialmente para que encaixe neste padrão. É vedada qualquer relação fora disto – especialmente dos “leigos” com respeito aos “líderes”.

Mas esta maneira de pensar gera as seguintes perguntas: Quem cobre a igreja mãe? Quem cobre a sede denominacional? Quem cobre o obreiro cristão?

 Alguns oferecem a fácil resposta de que Deus é quem cobre estas autoridades “mais elevadas”.  Mas esta resposta enlatada demanda outra questão: O que impede que Deus seja diretamente a “cobertura” dos “leigos”, ou mesmo do pastor?

  Sem dúvida, o problema real com o modelo “Deus-denominação-clero-leigos” vai bem além da lógica incoerente e danosa a que esta conduz. O problema maior é que este modelo viola o espírito do Novo Testamento, porque por trás da retórica piedosa de “prover da responsabilidade de prestar contas” e de “ter uma cobertura”, surge ameaçador um sistema de governo que carece de sustento bíblico e que é impulsionado por um espírito de controle. 

 

 

CAPÍTULO 1

 

MODELOS DE LIDERANÇA

 

 Se formos até as raízes, a idéia da “cobertura” repousa sobre uma noção hierárquica de autoridade altamente organizativa. Esta noção foi copiada das estruturas que pertencem a este mundo. De nenhum modo reflete o reino de Deus.

Expliquemos isto com detalhes. 

A estrutura de liderança hierárquica que caracteriza a igreja Ocidental, deriva de una mentalidade posicional.  Esta maneira de pensar outorga autoridade em termos de espaços a alcançar, descrições objetivas de trabalho a realizar, títulos para exibir, e postos que fazem valer seus privilégios. 

A maneira de pensar posicional revela um grande interesse por estruturas explícitas de liderança. Termos tais como “pastor”, “ancião”, “profeta”, “bispo”, etc, são títulos que representam ofícios eclesiásticos.

Ou seja, um ofício é um espaço definido pelo grupo. Tem uma realidade alheia à pessoa que o ocupa. Também  possui  uma realidade alheia às ações que a pessoa realiza nesse oficio.

Por contraste, a noção de liderança do NT está arraigada em uma mentalidade funcional.  Descreve a autoridade em termos de como as coisas operam organicamente. Ou seja, funcionam por meio da vida em Deus.

A liderança descrita no NT atribui um alto valor aos dons especiais, a maturidade espiritual e o serviço sacrificado de cada membro.  Enfatiza as funções em vez dos ofícios, as tarefas em vez dos títulos.  Seu interesse principal está em atividades tais como pastore-ar, profetiz-ar, supervis-ar, etc. Em outras palavras, o pensamento posicional se apaixona pelos substantivos, enquanto que o pensamento funcional acentua os verbos.

Na ênfase posicional, a igreja deve modelar-se segundo as estruturas corporativas empresariais e militares de nossa cultura.  Na ênfase funcional, a igreja opera por meio da vida. O ministério mútuo surge de maneira natural. A estrutura e o ranking estão ausentes.

É comum às igrejas orientadas pela tendência posicional/hierárquica a existência de uma maquinaria política que funciona detrás do cenário, que promove diversas pessoas a posições de poder eclesiástico. 

Habitualmente nas igrejas orientadas funcionalmente se manifesta a responsabilidade mútua e a interação colegiada de seus membros. Escutam juntos ao Senhor e se afirmam mutuamente em dons que recebem do Espírito.

Em suma, a orientação que o NT imprime à liderança é orgânica e funcional. Por outro lado, a orientação da liderança posicional/oficial é fundamentalmente mundana. Existe uma afinidade natural entre a orientação posicional/hierárquica e o conceito de “cobertura protetora”. 

 

Jesus e a Idéia de Liderança Gentílica/Política

O ministério de Jesus com respeito à questão da autoridade clarifica os temas fundamentais que estão por trás da moderna doutrina da “cobertura”.  Consideremos como o Senhor contrastava o modelo hierárquico de liderança do mundo gentílico com a liderança no reino de Deus. Depois que Jacobo e João lhe pediram que lhes concedesse altas posições de poder e glória ao seu lado no Seu trono, Jesus os contestou dizendo,

Vocês sabem que os governantes das nações AS DOMINAM, e as pessoas importantes EXERCEM PODER sobre elas. NÃO SERÁ ASSIM ENTRE VOCÊS; ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo, como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.  (Mat. 20:25-28)

E  mais uma vez,

...Os reis das nações DOMINAM sobre elas, e os que EXERCEM AUTORIDADE sobre elas são chamados de benfeitores; MAS VOCÊS NÃO SERÃO ASSIM. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa como o que serve. Pois quem é maior, o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa?  Mas eu estou entre vocês como o que serve.  (Luc. 22:25-27).

A palavra grega traduzida por “exercem sua autoridade” em Mateus é  katexousiazo que é uma combinação de duas palavras gregas: katá, que significa  sobre, e  exousiazo, que significa exercer autoridade.  O Senhor também utiliza nesta passagem a palavra grega katakurieuo que significa “controlar” ou “dominar” aos demais.  O que Jesus condena nestas passagens não é apenas os líderes opressores como tais, mas a forma hierárquica de liderança que domina o mundo gentílico. 

Isto merece ser repetido: Jesus condenou não apenas os líderes tirânicos, condenou também a própria forma de liderança hierárquica!

Qual é a forma hierárquica de liderança?  É o estilo de liderança fundado na idéia pobre de que o poder e a autoridade fluem de cima para baixo. Essencialmente, está construída em uma estrutura social de cadeia de comando.

 A liderança hierárquica está baseada em um conceito mundano de poder.  Isto explica porque esta fórmula é comumente usada em todas as burocracias tradicionais. Está presente nas formas corruptas do feudalismo senhor/vassalo e amo/escravo. Também pode ser vista nas esferas altamente estilizadas e reguladas das sociedades militares e empresariais do primeiro mundo.

O estilo de liderança hierárquico, mesmo que não seja cruel, é prejudicial para o povo de Deus, porque reduz as relações humanas a associações estilo comando. Com isto quero dizer que as relações se ordenam na forma de uma estrutura militar do tipo cadeia de comando. Estas relações são alheiras à prática e ao pensamento do NT.

A liderança hierárquica está estabelecida em todas as esferas da cultura pagã. Lamentavelmente foi adotada pela maioria das igrejas cristãs de nossos dias.

Resumindo o ensino de nosso Senhor acerca deste estilo de liderança, tornam-se evidentes estes marcantes contrastes.

·       No mundo gentílico, os líderes operam sobre a base de uma estrutura social política, tipo cadeia de comando – uma hierarquia.  No reino de Deus, a liderança flui da mansidão e do serviço sacrificado.

·       No mundo gentílico, a autoridade está baseada na posição e no ranking.  No reino de Deus, a autoridade está cimentada no caráter piedoso.  Note a descrição que Cristo faz dos líderes: “será vosso escravo” e “seja... como o menor”. Aos olhos do Senhor, ser precede ao fazer, e o fazer surge do ser.  Em outras palavras, a função segue o caráter. Os que servem, fazem assim porque são servos.

·       No mundo gentílico, a grandeza se mede pela proeminência, pelo poder externo e pela influência política.  No reino de Deus, a grandeza se mede pela humildade interna e pelo serviço externo.

·       No mundo gentílico os líderes se aproveitam de suas posições quando governam os demais.  No reino de Deus os líderes rechaçam toda classe de reverência especial e vêem a si mesmos como “o menor”.

Em suma, as estruturas hierárquicas de liderança caracterizam o espírito dos gentios. Portanto, a implantação destas estruturas entra em choque com o cristianismo do NT. Nosso Senhor não exitou quando declarou Seu implícito desprezo pela noção gentílica de liderança, porque claramente disse: “não será assim entre vocês”. 

Considerando tudo isso, no ensino de Cristo não há lugar para o modelo de liderança hierárquica que caracteriza a moderna igreja.

 

Jesus e o Modelo de Liderança Judaico/Religioso

Jesus também contrastou a liderança no reino com o modelo de liderança que caracteriza o mundo religioso.  No texto adiante, o Senhor expressa vividamente a perspectiva de Deus com respeito à autoridade, em contraste com o conceito judaico:

Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o Mestre de vocês, E TODOS VOCÊS SÃO IRMÃOS. A NINGUÉM NA TERRA CHAMEM ‘PAI’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. TAMPOUCO VOCÊS DEVEM SER CHAMADOS ‘CHEFES’, porquanto vocês têm um só Chefe. O Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.  (Mat. 23:8-12).

O ensino de Cristo nesta passagem é o seguinte:

·  No clima religioso dos judeus existia um sistema de classes formado por religiosos, especialistas do tipo guru, e os não especialistas. No reino, todos são irmãos da mesma família.

·  No mundo judaico, aos líderes religiosos são outorgados títulos honoríficos (por exemplo, Chefes, Pai, Reverendo, Pastor, Sacerdote, Ministro, etc.).  No reino não há distinções de protocolo. Estes títulos obscurecem o incomparável lugar de honra que corresponde a Jesus e empana a revelação do NT que contempla todos os cristãos como ministros e sacerdotes.

·  No mundo judaico, os líderes são elevados a posições de proeminência em uma posição de poder.  No reino, os líderes encontram seu trabalho no parâmetro simples do serviço e na modesta convicção da humildade.

·  No mundo judaico, a liderança se fundamenta no status, nos títulos e na posição. No reino, a liderança está arraigada na vida interior e no caráter. (Nesse mesmo tom, a mania tão comum de outorgar “doutorados” honoris causa a um incontável número de clérigos é apenas um exemplo de como a igreja moderna reflete aqueles valores de liderança que vão contra o reino de Deus).

Em suma, há um grande abismo entre a liderança segundo Jesus e o que vemos na maioria das modernas igrejas. O Senhor imprimiu um golpe de morte aos modelos de liderança gentílicos/hierárquicos e judaicos/posicionais.

 Estes modelos que incham o ego são incompatíveis com a simplicidade da igreja primitiva e o reino de Jesus Cristo. Ambos sistemas impedem o progresso do povo de Deus, eliminam a funcionalidade do sacerdócio dos crentes, rompem a imagem da igreja como uma família, e põe severas limitações ao Governo de Cristo.  Por estas razões “não será assim” entre os que levam o nome do Salvador.

 

Os Apóstolos e a Liderança Posicional/Hierárquica

Não há dúvidas de que nosso Senhor condenou as estruturas de liderança posicionais/hierárquicas. Mas, e quanto a Paulo e outros apóstolos?

 Contrariamente à idéia popular, as cartas do NT nunca falam dos líderes da igreja em termos de “ofícios” e outros convencionalismos da organização social humana. (Um pouco mais adiante trataremos com as várias passagens que alguns usam para respaldar os “ofícios” eclesiásticos).

Sempre que o NT descreve aqueles que são principalmente responsáveis pela supervisão espiritual, se refere ao trabalho que desempenham. Por esta razão, domina a linguagem funcional. Os verbos são proeminentes.

Os episcopos [episkópois = palavra que descreve a pessoa com função pastoral] locais são chamados anciãos e supervisores (Tito 1: 5-7). Isto se deve ao fato de que cumpriam com seu labor enquanto anciãos, atuando como modelos de maturidade para os menos maduros (1 Ped. 5.3). Também supervisavam – cuidavam do bem estar espiritual da igreja (1 Ped. 5:2).

A tarefa dos anciãos também se descreve por meio da metáfora do “pastor” (Atos. 20:28; 1 Ped. 5:1-4). Isto se deve ao fato de serem vigilantes, do mesmo modo que os pastores, em seu sentido literal, cuidam das ovelhas.

Por conseguinte, se igualamos os episcopos a um espaço sociológico (um ofício) corremos um considerável risco. Temos que restringir o termo “pastor” a seu significado essencial (alguém que se ocupa de ovelhas). Também devemos restringir o vocábulo “ancião” a seu significado básico (um homem idoso). Sem deixar de mencionar que é necessário fazer o mesmo com a palavra “provedor”  (alguém que provê cuidado aos outros).

É importante levar em conta que todos os cristãos participam da liderança corporativa. Cada membro dirige quando exercita seu dom espiritual.  Como está demonstrado em Reconsiderando o Odre, a direção e a tomada de decisões pertence a toda igreja. A supervisão vem dos anciãos na medida em que surgem (e isto leva um tempo). 

 

O rol dos Anciãos/Supervisores

No idioma grego, ancião (presbíteros) simplesmente significa um homem idoso. Por conseguinte, um ancião é um santo maduro ou um irmão mais velho.

  Os anciãos do NT, por conseguinte, eram simplesmente homens espiritualmente maduros –Cristãos exemplares que supervisionavam (não controlavam nem dirigiam) os assuntos da igreja local.

 Os anciãos não eram figuras decorativas da organização, pregadores assalariados, clérigos profissionais nem altos funcionários eclesiásticos.  Simplesmente eram irmãos mais maduros (anciãos de fato) levando a cabo funções reais (pastor-eando, supervision-ando, etc.).

Seu labor principal era triplo:  ser modelos de serviço na assembléia, motivar aos santos para as obras de serviço e modelar o desenvolvimento espiritual dos crentes mais jovens (1 Pe. 5:1-3). Os anciãos eram também os que lidavam com situações difíceis na igreja (Atos 15:6ss).

Mas os anciãos nunca tomavam decisões pela igreja. Como descrevo em meu livro Reconsiderando o Odre, o método do NT para a tomada de decisões não era ditatorial nem democrático, mas consensual e envolvia todos os irmãos e irmãs.

Como vigilantes, os anciãos supervisionavam a obra dos demais (em vez de substituí-la). Oravam com os olhos abertos e tinham suas antenas espirituais constantemente erigidas para descobrir e enfrentar os lobos. Como homens de mais idade, sua sabedoria era procurada em tempos de crise, e quando falavam, suas vozes tinham o peso da experiência. 

Dotados de um coração de pastor, os anciãos levavam continuamente as cargas da igreja. Ajudavam a guiar, proteger e alimentar os crentes mais jovens até que estes pudessem caminhar pelos próprios pés.

Falando de maneira simples, os anciãos eram facilitadores espirituais que proporcionavam direção, abasteciam de alimento, e alentavam o compromisso entre os membros e a igreja.  Ser ancião, portanto, é algo que alguém faz em vez de um espaço que alguém ocupa ou uma cadeira que alguém senta.

O NT confirma isto bem claramente; porque se Paulo e os outros apóstolos desejassem descrever os líderes da igreja como ocupantes de cargos oficiais, teriam a disposição numerosos termos gregos que poderiam ter utilizado para isso.

Portanto, é bem significativo que os seguintes termos gregos estejam ausentes do vocabulário eclesiástico dos apóstolos:

·  Arjé (chefe, governante, oficial de tropa)

·  time (um oficial ou dignatário)

·  telos (o poder inerente de um governante)

·  arjisinágogos (oficial da sinagoga)

·  hazzan (líder da adoração pública)

·  taxis (posto, posição ou ranking)

·  hieratéia (oficio de um sacerdote)

·  arjón (governante ou principal)

O NT nunca emprega nenhuma destas palavras para descrever líderes na igreja.  Como sucede com Cristo, a palavra favorita dos apóstolos para descrever líderes da igreja é diákonos  -que significa servidor ou ajudante. 

A tendência de referir-se aos líderes-servos da igreja como ocupantes de cargos oficiais e clérigos profissionais contrasta com seu verdadeiro significado na linguagem bíblica e impossibilita o sacerdócio dos crentes.

 

O Problema do Moderno Rol Pastoral

Pela mesma razão, a noção comumente aceita do “pastor único” (um só pastor) entra em choque com a noção do NT. Não há uma palavra na Bíblia que descreva alguém  no timão de uma igreja local, dirigindo seus assuntos, pregando a cada domingo, conduzindo batismos, e oficiando o serviço da comunhão (ou Ceia do Senhor).

O “rol pastoral” profissional altamente especializado do moderno protestantismo é uma novidade pós-bíblica que evoca uma tradição sacerdotal inventada pelos homens.  Em sua essência é uma herança do romanismo (o sacerdote) que reflete os pobres e débeis elementos  da economia levítica. 

O rol pastoral é tão pernicioso que perverte a muitos que ocupam tal posição. Os que são seduzidos por símbolos do êxito que rodeia o clericalismo profissional, sempre terminam sendo virtualmente corrompidos por ele. Deus nunca chama ninguém para que carregue sobre seus ombros o pesado encargo de ministrar as necessidades da igreja.

Quiçá a característica mais desalentadora do moderno rol pastoral é que mantém na infância espiritual as pessoas que afirma servir. Na medida em que o rol pastoral usurpa o direito do crente de ministrar de uma maneira espiritual, termina deformando o povo de Deus, fazendo-o débil e inseguro.

Claro que muitos que atuam neste rol o fazem por razões saudáveis, e não são poucos aqueles que desejam sinceramente que seus irmãos assumam uma responsabilidade espiritual.  (Muitos pastores vivem com esta frustração, mas poucos relacionam o problema com sua profissão).

Assim, pois, o moderno ofício de “pastor” sempre sufoca e arrebata o poder do sacerdócio dos crentes, sem levar em conta o quão fora de controle pode chegar a ser a pessoa que alcança esta posição. 

Na medida em que o pastor assume a carga de trabalho, a maioria dos irmãos mergulha na passividade, pesarosos e egoístas deixam de crescer espiritualmente.  Desta maneira, é inevitável que pastores e congregações terminem igualmente convertendo-se em inválidos espirituais, inutilizados por este oficio antibíblico.

O NT chama Paulo de “apóstolo”, Filipe de “evangelista”, Manaén de “mestre” e Agabo de “profeta”, mas nunca identifica  alguém como pastor!  De fato, a palavra “pastor” é utilizada apenas uma vez em todo o NT (veja Efésios 4:11). “Pastor” é usado como metáfora descritiva, nunca como  título ou oficio eclesiástico.  Isso não é levado em conta na prática comum. Em nossos dias o “pastor” é tido como a figura mais valiosa da igreja, e seu nome brilha com destaque nas igrejas em todas as partes da União Estadunidense.  (É de se perguntar porque os nomes dos outros ministérios não aparecem nestas luminárias quando o NT lhes outorga bem maior atenção).

O rol pastoral moderno sufoca a Chefatura de Jesus Cristo e tem um efeito espiritual paralisante na igreja. Despoja-a de sua plena função sacerdotal (de todos os crentes) tão amada por Deus. Além disso, a própria presença do pastor dilui e afoga os crentes “ordinários”  que são igualmente talentosos para pastorear e ensinar o rebanho. (Não  percebem o fato de que a Bíblia ensina que cada igreja deve ter múltiplos pastores e que todos os membros têm a responsabilidade pastoral). 

Tipicamente, se alguém, que não seja o pastor, se atreve a pastorear ou ensinar as ovelhas (mesmo se esse alguém é digno de confiança, maduro e espiritualmente inteligente), o pastor se sentirá ameaçado e o colocará de lado com o pretexto de “proteger” o rebanho.

Sendo mais específico e direto, a idéia que se tem hoje em dia do “pastor” está bem distante do pensamento de Deus. Impõe à dinâmica da comunidade do NT a camisa de força do Antigo Testamento. 

No obstante, apesar das tragédias espirituais que isto engendra, as massas continuam dependendo, defendendo e insistindo na existência deste rol tão antibíblico.  Por esta razão os chamados “leigos” são tão responsáveis pelo problema do clericalismo como o próprio “clero”. Como diz Jer. 5.31, “os profetas profetizam mentiras, os sacerdotes governam por sua própria autoridade, e o meu povo gosta destas coisas. Mas o que vocês farão quando tudo isso chegar ao fim?”

Falando com toda franqueza, os cristãos preferem a comodidade de ter alguém de fora encarregado da responsabilidade do ministério e pastoreio.  Para eles, é melhor pagar um especialista religioso que atenda às necessidades dos irmãos, do que se molestar com as demandas espirituais do serviço e cuidado pastoral, coisas que podem colocar em risco a própria vida.

As palavras do antigo profeta captam o desgosto do Senhor com esta maneira de pensar:  “Eles instituíram reis sem o meu consentimento, escolheram líderes sem a minha aprovação.” (Ose 8:4a).

À luz destes graves fatos, alguém pode perguntar inteligentemente como é que o moderno rol pastoral continua sendo a forma geralmente aceita de liderança na igreja de hoje.  A resposta está profundamente arraigada na historia da Reforma, e continua sendo reforçada pelos imperativos culturais atuais. 

Nossa obsessão Ocidental no século XX por ofícios e títulos nos levou a contrapor nossas próprias idéias sobre ordem eclesiástica às do NT. Não obstante, o espírito e os valores das epístolas do NT militam contra a idéia do sistema de um único pastor, assim como do ancião, enquanto oficio.

A Escritura igualmente milita contra o conceito de “pastor principal”, que consiste na prática comum de elevar um dos pastores (anciãos) a uma posição proeminente de autoridade.  Mas o NT em parte alguma aprova a noção de primos inter pares – “primeiro entre iguais”.  Certamente não de uma maneira oficial ou formal.

Esta ruptura entre “o pastor” e os demais anciãos é um acidente da historia.  Na medida em que isto se encaixa perfeitamente bem com nossa maneira aculturada de pensar Ocidental, os crentes modernos não têm problema em crer que a Escritura ensina esta falsa dicotomia.

Em suma, o moderno rol pastoral é pouco mais que uma mescla de liderança, administração, psicologia e oratória do tipo “um-pacote-para-tudo”; tudo em um único pacote para o consumo religioso.  Como tal, o rol sociológico do pastor, como se pratica no Ocidente, tem poucos pontos de contato com algo ou alguém do NT.

 

 

O Dramático Desprezo com que o Novo Testamento Trata os Líderes

As cartas de Paulo têm muito a dizer com respeito à importância de uma vida exemplar, mas não mostram interesse no cargo titular ou formal.  Este fato merece muito mais atenção do que até agora recebeu.

Considere o que segue.  Cada vez que Paulo escrevia a uma igreja em crise sempre se dirigia à própria igreja em vez de dirigir-se a seus líderes. Esta prática é constante desde a primeira até a última de suas epístolas. (Note que as “Epístolas Pastorais” – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito – foram escritas para os colaboradores apostólicos de Paulo e não para as igrejas).

Permita-me repetir isso. Cada vez que Paulo escrevia uma carta a uma igreja, ela era dirigida a toda igreja. Paulo nunca escreveu a um líder ou a líderes! Gálatas 1: 1-2:  Paulo, apóstolo enviado, não por parte de homens nem por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus. . . às igrejas da Galácia. 1 Tessalonicenses 1:1: Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses...   2 Tessalonicenses 1:1: Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses, em Deus nosso Pai e no Senhor Jesus Cristo... 1 Coríntios 1:1-2: Paulo, chamado para ser apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus. . . à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos, juntamente com todos os que, em toda parte, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso. 2 Coríntios 1:1: Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto, com todos os santos de toda a Acaia. Romanos 1:1,7: Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus. .  . a todos que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos. Colossenses 1:1: Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo Jesus que estão em Colossos. Efésios 1:1  Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos e fiéis em Cristo Jesus que estão em Éfeso. Filipenses 1:1: Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos (episkópois = vigilantes) e diáconos (diakónois = servidores).

É notável observar que cada igreja a que Paulo escreveu estava em crise (exceto a de Éfeso). Não obstante, Paulo nunca recorre aos anciãos de nenhuma delas!

Tomemos Corinto, por exemplo, a igreja com maiores problemas que se menciona no NT.  Em toda a correspondência aos Coríntios, Paulo não se dirige aos anciãos, nem lhes repreende, nem recomenda que se lhes obedeça.  De fato, nem mesmo os  menciona! 

Em vez disso Paulo recorre a toda a igreja.  Lhes mostra que sua responsabilidade é tratar com as feridas que a igreja infringiu a si mesma.  Paulo encarrega e implora “aos irmãos” mais de trinta vezes em 1 Coríntios, e lhes escreve como se não existissem cargos oficiais.

Se existissem cargos oficiais em Corinto, Paulo certamente se dirigiria a eles para que solucionassem os males.  Mas nunca faz isso.  No final da carta, conclama os Coríntios a se colocarem a disposição de Estefanas, que se havia dedicado a servir aos crentes. Em seguida, amplia este grupo, incluindo “todos os que cooperam e trabalham conosco”. (1 Cor. 16:15-16). 

Note que Paulo enfatiza a função, nunca a posição. Dirige a ênfase a toda a igreja. A totalidade da carta aos Coríntios é uma súplica a toda a assembléia para que se encarregue de resolver seus próprios problemas.

Provavelmente, o exemplo mais claro da ausência de anciãos-com-cargos-oficiais em Corinto se encontre em 1 Coríntios 5. Ali Paulo convoca toda a igreja para disciplinar um membro caído entregando-o a Satanás (1 Cor. 5:1ss.).  Sua exortação se opõe à idéia bem em voga de que apenas os que possuem “poder eclesiástico” estão qualificados para estas delicadas tarefas.

A diferença na maneira com que Paulo considera aos anciãos e a forma como as igrejas modernas os consideram é extraordinária. Paulo não menciona os anciãos nem mesmo uma única vez em nenhuma de suas nove cartas às igrejas!  Incluindo seu tratado ultracorretivo aos Gálatas. Pelo contrário, Paulo persistentemente insta aos “irmãos” à ação.

Na última carta que dirige a uma igreja, Paulo finalmente menciona os episcopos em uma saudação inicial, e de uma maneira bem breve. Saúda aos episcopos somente depois de saudar toda a igreja (Fil. 1.1).

 Esta tendência é notável no livro aos Hebreus. Ao longo de toda epístola o escritor se dirige a toda igreja. Somente no final da carta e de maneira informal pede aos santos que saúdem seus episcopos (Heb. 13:24).

Em suma, a evidente falta de atenção que Paulo dá aos líderes da igreja demonstra que rechaçava a idéia de que certas pessoas na igreja possuíam direitos formais sobre outras. Também se destaca o fato de que Paulo não cria em cargos oficiais eclesiásticos.

As cartas de Pedro ensinam o mesmo.  Como Paulo, Pedro escreve suas cartas às igrejas, e nunca a seus líderes. Concede um espaço limitado aos anciãos, e quando o faz, lhes adverte que não adotem o espírito dos Gentios.  Enfatiza especialmente que os anciãos estão em meio ao rebanho e não sobre ele (1 Pedro 5:1-2).

 Aos anciãos diz que não devem agir como dominadores (katakuriéuo) sobre os que estão a seu cuidado (1 Ped. 5.3).  De modo significativo, Pedro usa a mesma palavra que Jesus empregou em sua discussão acerca da autoridade. Estas foram exatamente Suas palavras: “. . . os governantes das nações as dominam (katakuriéuo). . . não será assim entre vocês” (Mat. 20:25).

Encontramos esta mesma ênfase no livro de Atos. Ali Lucas conta a historia de como Paulo exortava aos anciãos de Éfeso: “cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho no meio do qual o Espírito Santo os colocou como episcopos...” (Atos 20:28 NASB).  Note que os anciãos estão “no meio”, e não “sobre” o rebanho.

Tiago, João e Judas escrevem no mesmo tom.  Dirigem suas cartas às igrejas e não aos líderes. Tem bem pouco a dizer acerca da liderança e nada a dizer acerca dos anciãos como ocupantes de cargos oficiais.

 Por conseguinte, é bem claro que o NT rechaça sistematicamente a noção de cargos oficiais eclesiásticos na igreja. Nesta mesma linha minimiza grandemente o rol dos anciãos.

 

Anciãos versus Irmandade

   Faríamos bem em perguntar a razão pela qual o NT concede tão pouco espaço aos anciãos das igrejas. A razão, quase sempre ignorada e que soa estranha aos ouvidos institucionais é simplesmente esta: a maior parte da responsabilidade do cuidado pastoral, do ensino e do ministério na ekklesia descansa diretamente sobre os ombros de todos os irmãos e irmãs! 

   As riquezas da perspectiva do Corpo de Cristo que emana da visão de Paulo se deriva de sua ênfase constante em que cada membro possui um dom do Espírito (1 Cor. 12:7,11), tem um ministério e é um “crente responsável” no Corpo (Rom. 12:6; 1 Cor. 12:1ss.; Efe. 4:7; 1 Ped. 4:10). Como conseqüência, a responsabilidade ministerial nunca deve estar restrita a alguns poucos. 

Isto explica por quê a palavra adelfoi, traduzida como “irmãos”, aparece 346 vezes no NT e 134 vezes só nas epístolas de Paulo.  A maioria das vezes esta palavra é a forma abreviada que Paulo usa referindo-se a todos os crentes da igreja, homens e mulheres. Em contraste, a palavra “anciãos” aparece somente cinco vezes nas epístolas de Paulo. A palavra “episcopos” aparece nada mais que quatro vezes e a palavra “pastores” aparece apenas uma única vez!

O NT enfatiza a responsabilidade coletiva.  É a comunidade crente que é chamada a levar a cabo as funções pastorais. Os irmãos e as irmãs (= toda a igreja) são chamados a: Organizar suas próprias questões (1 Cor. 11:33-34; 14: 39-40; 16:2-3); Disciplinar membros caídos (1 Cor. 5:3-5; 6:1-6); Admoestar indisciplinados (1 Tes. 5:14); Animar desanimados (1 Tes. 5:14); Apoiar débeis (1 Tes. 5:14); Abundancia na obra do Senhor (1 Cor. 15:58); Admoestação mútua (Rom. 15:14); Ensino mútuo (Col. 3:16); Profetização mútua (1 Cor. 14:31); Serviço mútuo (Gál. 5:13); Auxílio mútuo (Gál. 6:2); Preocupação mútua (1 Cor. 12:25); Amor mútuo (Rom. 13:8; 1 Tes. 4:9); Honra e preferência mútua (Rom. 12:10); Bondade e tolerância mútua (Efe. 4:32); Edificação mútua (Rom. 14:19; 1 Tes. 5:11b); Compassividade e paciência mútua (Efe. 4:2; Col. 3:13); Exortação mútua (Heb. 3:13; 10:25); Estímulo mútuo e amor pelas boas obras (Heb. 10:24); Ânimo mútuo (1 Tes. 5:11a); Oração mútua (Stg. 5:16); Hospitalidade mútua (1 Ped. 4:9); Comunhão mútua (1 Jn 1:7); Confissão mútua dos pecados (Stg. 5:16). Com dramática clareza, todas estas exortações “mútuas” encarnam a indiscutível realidade de que cada membro da comunidade deve assumir a responsabilidade do cuidado pastoral. A liderança é um assunto coletivo e não algo que alguém realiza sozinho. O Corpo como um todo deve assumir esta responsabilidade.

Por conseguinte, a idéia de que os anciãos dirigem os assuntos da igreja, tomam decisões pela assembléia, tratam de todos seus problemas e provêem ensino, é algo alheio ao pensamento de Paulo. Semelhante idéia é uma fantasia e carece de respaldo bíblico. Não é de estranhar o atrofiamento da maturidade espiritual nas igrejas guiadas por anciãos, onde a maior parte dos membros se converte em espectadores passivos e indolentes.

Em suma, o NT não contém uma só palavra acerca de uma igreja governada ou dirigida por anciãos. E menos ainda de uma igreja conduzida por um pastor! A igreja do primeiro século estava nas mãos de um coletivo composto por irmãos e irmãs. Pura e simplesmente.

O exemplo da igreja primitiva nos mostra como o ministério de todo o Corpo deve sobrepujar o rol supervisor dos anciãos. Devido a sua maturidade espiritual, os anciãos representavam mais um modelo de cuidado pastoral (Atos 20:28-29; Gál 6:1; Heb. 13:17b). Sua meta, juntamente com os obreiros extra locais, era habilitar os santos para que assumissem sua responsabilidade a favor do rebanho (Efe. 4:11-12; 1 Tes. 5:12-13).  Os anciãos podem ser simultaneamente profetas, mestres e evangelistas; mas nem todos profetas, evangelistas e mestres são anciãos. (Uma vez mais, os anciãos são os homens mais confiáveis e maduros da igreja).

O NT enfatiza a responsabilidade da igreja como um todo.  A liderança e a responsabilidade pastoral repousa sobre os ombros de cada membro da igreja, e não sobre as costas de determinada pessoa ou grupo. 

Na eclesiologia divina, a irmandade preenche e suplanta o grupo de anciãos.  Isto explica por que as cartas de Paulo se tornam pesadas quando tratamos de forçar a idéia de títulos e cargos oficiais.  Paulo ensina a liderança coletiva e condena o caciquismo espiritual de uma chefatura suprema. Por esta razão, fala bem mais acerca da irmandade que dos anciãos.

O testemunho do NT denunciando a autoridade posicional/hierárquica é evidentemente claro, e está em perfeita harmonia com o ensino de nosso Senhor Jesus. Como tal, a palavra final ao cristão com respeito às estruturas de liderança gentílicas e judaicas está encarnada na penetrante frase de nosso Senhor:  “Não será assim entre vocês”. (Mat. 20:26).  Este é o eixo de toda a questão.

 

 

CAPÍTULO 2

 

OBJEÇÕES TRADICIONAIS

 

Ao longo dos séculos, certas passagens do NT foram manipuladas para respaldar estruturas de liderança hierárquica e ofícios na igreja. Isto provocou muito dano no Corpo de Cristo.

Como vimos no capítulo anterior, a ênfase do NT com relação ao ministério de liderança está na “ação” e no “funcionamento”, e não na “posição” e no “cargo”. De fato, na igreja primitiva não havia coisas como “ofícios eclesiásticos”.

A noção de autoridade posicional/hierárquica é em parte resultado de traduções ruins e interpretações ainda piores de certas passagens bíblicas. Estas más traduções e interpretações resultaram da influência de diversos fatores culturais. Estes fatores  tergiversaram o significado original da linguagem bíblica. Transformaram simples palavras em títulos eclesiásticos carregados de poder.

Assim, tais títulos não têm origem na Santa Escritura. Por isso é necessária uma releitura do NT em sua língua original para compreender adequadamente certos textos. Uma visita ao texto grego nos permite levantar sobriamente os seguintes fatos:

·         Os bispos são simples guardiões (episkópoi), e não altos dignitários eclesiásticos.

·         Os pastores são vigilantes (poiménes), e não estrelas profissionais do púlpito.

·         Os ministros são ajudantes (diáakonoi), e não clérigos.

·         Os anciãos são gente idosa e madura (presbúteroi) e não ofícios eclesiásticos.

É com gratidão que vemos como um crescente número de eruditos do NT está descobrindo que a terminologia de “liderança” do NT possui matizes descritivos que denotam funções especiais na igreja, em vez de posições formais.

O que segue é uma lista de objeções comuns que surgem a respeito da idéia de que liderança na igreja não é cargo oficial, título, nem posto hierárquico. Cada objeção é seguida por uma clara resposta.

 

Objeções do Livro de Atos e do Corpus Paulino

(1) Atos 1:20, Romanos 11:13, 12:4 e 1 Timóteo 3:1,10,13 não se referem a ofícios eclesiásticos?

A palavra “ofício” [ou “cargo oficial”] em todas estas passagens é inapropriada, porque não há equivalente no texto original.  De fato, em nenhuma parte do texto grego do NT encontramos o equivalente a “oficio” sendo utilizado em conexão com algum ministério, função ou liderança na igreja.  A palavra grega para “oficio” se emprega unicamente referindo-se ao Senhor Jesus em Seu ofício de Sacerdote (Heb. 5-7). Também é usada referindo-se ao sacerdócio Levítico (Luc. 1:8).

A versão inglesa King James [KJV] traduz equivocadamente Romanos 11:13: “. . . I magify mine office” [“enalteço meu oficio”]. A palavra grega aqui traduzida como “oficio” significa serviço, e não oficio.  Por conseguinte, uma melhor tradução de Romanos 11.13 seria, “... honro meu serviço [o ministério] (diakonía)”.

De maneira semelhante, Romanos 12:4 seria mais bem traduzido assim: “...nem todos os membros tem a mesma função (praxis)”. No grego a palavra praxis significa uma atividade, uma prática ou função, em vez de um oficio ou posição (veja a Bíblia Textual [BT], a Nova Versão Internacional [NVI] e a Bíblia das Américas [BA]).

 Por último, 1 Timóteo 3:1 na KJV é traduzido assim: “If a man desires the office of a bishop...” [“Se um homem deseja o ofício de um bispo...”]. Mas uma tradução mais precisa seria: “Se alguém aspira vigiar...” (veja também a tradução da Bíblia de J.N. Darby).

 

(2)A lista de requisitos que Paulo apresenta nas Epístolas Pastorais, ou seja, 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:7-9 não indica que ancião se refere a um ofício?

As cartas de Paulo a Timóteo e a Tito foram denominadas “Epístolas Pastorais” no século XVIII (“Pastoral Letters”, Dictionary of Paul and His Letters, InterVarsity Press). Mas tal título não é correto.

 Timóteo e Tito nunca foram pastores! Eram colaboradores apostólicos normalmente itinerantes. Bem raramente se detinham em algum lugar por um longo período de tempo. (Por exemplo, Paulo enviou Tito a Creta e Timóteo a Éfeso para fortalecer aquelas igrejas e corrigir alguns problemas internos).

Pelo fato de viajarem por diversos lugares plantando igrejas, Paulo nunca chamou Timóteo e Tito de anciãos ou pastores. Estes homens formavam parte do círculo apostólico de Paulo – um grupo que se destacou por suas contínuas viagens. (Rom. 16:21; 1 Cor. 16:10; 2 Cor. 8:23; 1 Tes. 1:1; 2:6; 3:2; 2 Tim. 2:15; 4:10).

Tudo o que está escrito em 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito deve ser compreendido desta perspectiva.  Isto certamente explica algumas das diferenças entre tais epístolas e o restante das cartas de Paulo.  Em 1 e 2 Timóteo e Tito, a metáfora do Corpo está ausente por completo. Menciona-se ocasionalmente aos “irmãos”, e há pouca ênfase no mútuo ministério. 

Pela mesma razão, nestas epístolas não encontramos nada parecido com um catolicismo nascente.  Mencionam o Espírito de Deus, assim como Seus dons, e afirma que os líderes devem lograr reconhecimento pelo seu exemplo, e não pelo fato de ocuparem alguma posição.

O que temos nestes textos são, portanto, as qualidades essenciais de um verdadeiro vigilante, e não uma lista de requisitos necessários ao exercício de um oficio.

 A somatória de todas estas qualidades é: retidão moral e responsabilidade. Piedade e estabilidade.  As listas de Paulo, portanto, serviram meramente como guia para ajudar Timóteo e Tito a identificar e firmar guardiões [ou vigilantes] nas igrejas locais onde atuavam (1 Tim. 5:22; Tito 1:5).

Ademais, o sentido destes textos em grego refere-se à função e não a ofícios.  Paulo não chama o viajante ou o guardião como “titular de um cargo”. Chama tais atividades como “nobre função” (1 Tim. 3:1b, NVI).  Por outro lado, em 1 Timóteo 5:17, emprega uma linguagem funcional quando recomenda que se honre aos anciãos que “orientam bem” e que “dedicam seus esforços” à proclamação e ao ensino.

Por conseguinte, confundir os guardiões ou vigilantes mencionados nestes textos com os modernos “funcionários” eclesiásticos – como o atual pastor – é pura fantasia. Isto se deve a nossa tendência de impor sobre o NT nosso  convencionalismo organizativo.  É por causa de uma estrutura cultural absorvida que introduzimos esse sentido ao texto e nada mais.  Em suma, a linguagem da função em vez do ofício domina as “Epístolas Pastorais” assim como ocorre com as demais epístolas de Paulo.

 

(3) 1 Coríntios 12:28 diz: “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em segundo lugar, profetas, em terceiro, doutores. . .” Não descreve este texto uma hierarquia de ofícios eclesiásticos?

Esta pergunta revela nossa inclinação para ver a Escritura com as lentes contaminadas da hierarquia humana.  Insistir em que cada um destes itens deve ser compreendido em termos hierárquicos de um acima outro abaixo é uma mania peculiarmente estadunidense.  De forma que cada vez que encontramos no NT uma lista estruturada (como 1 Coríntios 12:28), parece que não podemos escapar de inferir que aquilo implica em una hierarquia.

Indubitavelmente, nós ocidentais do século XX, gostamos de pensar em termos organizativos estilo organograma, mas a Bíblia nunca faz assim.  Pensar que toda lista estruturada que vemos na Escritura possui algum tipo de hierarquia velada é um pressuposto injustificado.

 Ver uma hierarquia no catálogo de dons de 1 Coríntios 12:28 é no mínimo uma má interpretação de Paulo, influenciada culturalmente. A questão das estruturas de autoridade não aparece em nenhuma parte deste texto.  Uma boa exegese desta passagem não nos conduzirá a qualquer idéia de hierarquia.  Somos nós que impomos tal idéia no texto!

Uma leitura mais natural desta passagem indica que a ordem reflete uma prioridade lógica, nunca uma hierarquia. Em outras palavras, a ordem mostra alguns dons maiores no que diz respeito à edificação da igreja (compare com 1 Cor. 12:7,31; 14:4,12,26).  Esta interpretação harmoniza perfeitamente com o contexto imediato em que aparece (1 Cor. 12-14).

Paulo está dizendo que dentro do âmbito da edificação da igreja, o ministério do apóstolo é fundamental.  Isto se deve ao fato dos apóstolos dar nascimento à igreja e a sustentarem durante seu desenvolvimento pré-natal. Os apóstolos revolvem a terra e plantam a semente da ekklesia. (A semente é Cristo). 

Na medida em que os apóstolos cimentam a igreja, destacam primeiramente (cronologicamente) a obra da edificação da igreja (Rom. 15:19-20; 1 Cor. 3:10; Efésios 2:20). É significativo que ao mesmo tempo em que os apóstolos são colocados em primeiro lugar no esquema de formação da igreja, figuram no último lugar aos olhos do mundo – Mat. 20:16; 1 Cor. 4:9!

Os profetas aparecem em segundo lugar na lista. Isto indica que seguem imediatamente aos apóstolos pelo que significam para a edificação da igreja.  Muita confusão (e abuso) rodeia a função de profeta.

Em poucas palavras, os profetas provêem a igreja de visão e estímulo espiritual. Como os apóstolos, os profetas revelam o mistério do propósito de Deus para o presente e o futuro (Atos 15:32; Efésios 3:4-5).  Também arrancam pela raiz as ervas daninhas para que a igreja possa crescer livre de estorvos. 

Os mestres são mencionados em terceiro lugar, indicando com isso que vem depois dos profetas no valor de seus dons no que diz respeito à edificação da igreja.  Os mestres colocam a igreja sobre um sólido terreno doutrinário e provêem instrução sobre os caminhos de Deus. Também pastoreiam aos santos em tempos difíceis.

Continuando na metáfora, o mestre rega a semente e fertiliza a terra para que a igreja possa crescer e florescer. Se examinarmos o mestre de uma maneira cronológica, os mestres constroem a superestrutura da igreja depois de que os apóstolos e os profetas erigem o plano básico.

Esta interpretação de 1 Coríntios 12:28 segue bem mais a linha do pensamento de Paulo, do que a idéia de una estrutura de mando hierárquica onde apóstolos  “fazem valer seus privilégios” sobre profetas - e profetas fazem o mesmo com os mestres.  Além disso, esta interpretação traz ao primeiro plano um importante principio espiritual:  a ausência de autoridade hierárquica não significa que todos os dons sejam iguais!

Ao mesmo tempo em que o NT afirma que todos recebem dons e têm um ministério, também afirma que Deus distribui Seus dons de uma maneira variada (1 Cor. 12:4-6).  Cada dom é valioso para o Corpo de Cristo, e alguns dons são maiores que outros dentro de suas respectivas esferas (Mat. 25:14-15; 1 Cor. 12:22-24,31; 14:5).

Isto não significa que aqueles que têm dons maiores têm autoridade maior (ou vice versa) em algum sentido formal.  Deus chamou a cada um de nós para uma obra diferente. E alguns têm dons maiores para tarefas distintas.

Por exemplo, alguns são chamados para plantar igrejas. Outros, para o evangelismo local. E outros ainda recebem dons para mostrar misericórdia. Todos têm diferentes dons com diferentes responsabilidades. Alguns tem maior responsabilidade que outros (Rom. 12:6; Ef. 4:7).

Dentro da esfera de nossos dons, cada membro é indispensável para a edificação geral da igreja – mesmo aqueles membros cujos dons não são externamente impressionantes (1 Cor. 12:22-25). Por conseguinte, cada cristão na casa do Senhor é responsável pelo uso e incremento de seus dons. Todos nós somos advertidos contra a tentação de enterrá-los por temor (Mat. 25:25).

Em suma, a idéia de que 1 Coríntios 12:28 denota algum tipo de hierarquia eclesiástica carece de força argumentativa.  O texto tem em mente os dons maiores, considerados sob o pano de fundo da ordem cronológica da construção da igreja. Isto não aponta para coisas como a lei do mais forte de uma hierarquia eclesiástica ou para graus de autoridade que os cristãos devem escalar.

 

(4)  Atos 20:28, 1 Timóteo 5:17, 1 Tessalonicenses 5:12 e Hebreus 13:7,17,24 não mostram que os anciãos têm que governar a igreja?

A palavra  “governar” nestes textos destoa com o restante do NT, além disso, não há um único termo semelhante a ele em todo o texto grego do NT.  Este é, sem dúvida, outro caso onde certas traduções confundem o moderno leitor pelo emprego de uma terminologia religiosa culturalmente condicionada.

Vejamos agora cada passagem mencionada na objeção anterior. A palavra “governar” em Hebreus 13:7,17,24 é uma tradução do vocábulo grego grego hegéomai, que significa simplesmente guiar, conduzir ou seguir adiante.  F.F. Bruce, um profundo conhecedor do NT, em seu comentário à carta aos Hebreus traduz hegéomai como “guiar” (Epístola aos Hebreus, Ed. Nova Criação). Estes textos comunicam a idéia de “os que lhes guiam”, em vez de “os que lhes governam”.

 No mesmo sentido, em 1 Tessalonicenses 5:12, a palavra “presidir” (RV-1960) é uma tradução da palavra grega proístemi. Este termo sugere a idéia de estar à frente, supervisionar, guardar e prover cuidado.  Eruditos do NT como F.F. Bruce e Robert Banks explicam que este termo não tem a força técnica de uma designação oficial porque é usado como particípio e não como substantivo. Além disso, está colocado entre outros particípios que não designam caráter oficial (F.F. Bruce, 1 & 2 Thessalonians, WBC, Word; Robert Banks  Paul´s Idea of Community,  Hendrickson).

Bruce traduz 1 Tessalonicenses 5:12-13 assim: “Agora lhes pedimos, irmãos, que reconheçam aqueles que trabalham arduamente entre vocês, que cuidam e instruem vocês no Senhor. Tenham alta estima por eles por causa de sua obra”.  Essa mesma palavra (proístemi) aparece novamente em 1 Timóteo 5:17 e também é traduzida incorretamente como “governar” nas traduções da RV-1960 e da BA.  Além disso, em Atos 20:28, o texto grego diz que os anciãos estão “entre” (no meio de) o rebanho e não “sobre” ele (como traduz a versão da NVI).

O mesmo ocorre com a declaração de Paulo em 1 Timóteo 3:4-5. A menção de que os vigilantes ou supervisores devem “governar (proístemi) também sua própria casa” não se refere à sua habilidade para exercer poder.  Pelo contrário, tal passagem destaca sua capacidade na responsabilidade de supervisão e sustento aos demais.  A hora de fazer as coisas é o momento em que nosso caráter é mais severamente provado. É a isso a que Paulo se refere ao descrever o caráter dos vigilantes ou supervisores.

Em todas estas passagens, a idéia básica é vigiar em vez de mandar. Supervisionar em vez de dominar. Facilitar em vez de ditar ordens.  Oferecer direção em vez de governo.

O texto grego apresenta a imagem de alguém que está em meio ao rebanho, guardando e cuidando dele (como faria um servo eminente).  Evoca o pastor atento às ovelhas. Não o que as conduz por traz ou o que as governa por cima!

Mais uma vez, o propósito do ensino apostólico demonstra sistematicamente que a idéia de Deus acerca da liderança na igreja entra em choque com o rol de práticas convencionais da liderança empresarial composta por altos executivos.

 

(5)  Não é verdade que Romanos 12:8 ensina que Deus dota alguns crentes para governar na igreja, porque Paulo disse, “o que preside [que o faça] com diligencia”?

A versão bíblica inglesa KJV usa a palavra “ruleth” [“governa”] no texto. Mas a palavra grega que aparece aqui é proístemi.  Esta palavra alude ao que vigia e presta ajuda aos demais. Não se refere ao que os governa e controla.

O texto é mais bem traduzido assim:  “...o que vigia e cuida, que o faça diligentemente”  A idéia de Paulo aqui é claramente de fervente cuidado em vez de poder ditatorial.

 

(6)   Atos 14:23 e Tito 1:5 ensinam que os anciãos são ordenados, isso não implica no estabelecimento de um ofício?

Primeiramente, a menção de reconhecimento apostólico (nomeação) favorece mais a maneira funcional de pensar do que a interpretação posicional. Em Tito 1:5 a palavra traduzida como “designar” no grego é kathístemi e significa “por”.

Em Atos 14.23, a palavra usada é jeirotonéo e significa “estender a mão”. Ambos trazem a idéia de reconhecer o que os outros já haviam aprovado. Estas palavras eram utilizadas desta forma na literatura do primeiro século, mesmo fora do NT.

Segundo, não há a menor prova de evidencia textual que apóie a idéia de que o reconhecimento bíblico outorgue ou confira autoridade.  Paulo nunca concedeu autoridade para que alguém se colocasse acima do restante dos demais membros da comunidade.  O Espírito Santo é quem estabelece guardiãos (Atos 20:28).  Os anciãos existiam na igreja antes de serem reconhecidos externamente.

O reconhecimento apostólico meramente torna público o que o Espírito Santo realiza.  A imposição de mãos é um sinal de comunhão, unidade e afirmação, não uma graça especial ou transmissão de autoridade. Por conseguinte, é um tremendo erro confundir reconhecimento bíblico com ordenação eclesiástica. A imposição de mãos não qualifica nenhum especialista religioso a fazer mais do que o restante dos mortais sem títulos pode fazer!

Pelo contrário, o reconhecimento bíblico é simplesmente a confirmação externa efetuada pela igreja dos já comissionados pelo Espírito para uma tarefa específica.  Funciona como um testemunho visível de reconhecimento público.

Nas modernas igrejas caseiras, o reconhecimento público funciona como um cavalo de Tróia.  Alguns homens simplesmente são incapazes de manejar este reconhecimento. Infla-lhes o ego. O título lhes provoca uma viagem ao poder. Pior ainda, transforma-os em poderosos monstros.

Devemos recordar que no primeiro século havia obreiros itinerantes que reconheciam publicamente os guardiões (Atos 14:23; Tito 1:5). Por conseguinte, cabe aos obreiros de fora discernir o tempo e o método de como os guardiões devem ser reconhecidos. (Igrejas modernas caseiras, nunca se esqueçam disso!).

 O reconhecimento dos guardiões não deve ser imposto – quando eles emergem – pois se converterão em um molde rígido. Alguns plantadores de igrejas reconhecem diretamente os guardiões. Outros o fazem tacitamente. (Nesse aspecto, não há respaldo bíblico para anciãos auto designados ou designados pela congregação).

A realidade é que quando reconhecemos anciãos na forma de cerimônias, licenças, títulos de seminário, eleição por votação, etc., falamos sobre coisas que a Bíblia silencia.

 Faríamos bem em não esquecer que embora exista o principio do reconhecimento de anciãos no NT, o método é aberto.  Sempre tem o sentido de reconhecer uma função dinâmica em vez de instalar um oficio estático.

Ademais, se os anciãos são reconhecidos por obreiros de fora que conhecem bem a igreja, estamos em terreno Escritural seguro. Isto salvaguarda a igreja de ser controlada e manipulada por uma liderança auto imposta. Nomear anciãos de outra maneira é navegar à deriva, fora dos limites assinalados pela Bíblia.

 

(7)  Paulo não emprega a palavra “apóstolo” como um título oficial quando  se refere a si próprio?

Contrariamente ao que atualmente se pensa, na maior parte de suas cartas, Paulo afirma implicitamente que não é um apóstolo profissional.  Embora torne pública sua função especial na saudação de suas epístolas (por exemplo, “Paulo, um apóstolo de Cristo Jesus”), Paulo nunca se identifica como “o apóstolo Paulo”.

Esta é uma distinção significativa.  O primeiro caso descreve uma função especial baseada em uma comissão divina,  enquanto que no outro é um título oficial.